nada é mais feminino do que um gore básico
sim, eu também quero falar de demi moore gostosa num collant
Spoilers de Helter Skelter (2012) e A Substância (2024).
Parte I: O CONTEÚDO
Não me identifiquei muito com Elizabeth Sparkle.
Nunca quis cortar a minha pele em pedaços e enfiar silicone na minha bunda. Nunca quis aumentar a numeração do meu sutiã. Nunca quis lixar os ossos do meu rosto para deixá-lo afinado. Eu sou jovem. Tenho trinta e um anos. Minha pele ainda é firme e não tenho rugas. Meus cabelos são cheios, volumosos e escuros. Meu trabalho depende do quanto minha inteligência permanece afiada, não do quão bonita eu sou. Enquanto eu continuar estudando, escrevendo e dando aulas, eu estarei bem. Eu não preciso pesar 45 quilos. Eu não dependo da minha aparência para continuar tendo meu trabalho, meus amigos, as coisas que amo.
Eu me identifiquei com Elizabeth Sparkle.
Eu odeio as minhas unhas. Às vezes, me olho no espelho e penso em como queria ter outro rosto, com outro nariz, outra cor de olho, outro tipo de boca. Salvo penteados diferentes no Instagram mesmo sabendo que nunca terei paciência para fazer qualquer um deles. Não sei escolher a cor da minha base, mas às vezes penso que deveria saber e saber passar para ter a pele perfeita. Espinhas aleatórias me irritam. Às vezes, eu olho para as meninas de vinte anos e penso em como não sou mais tão jovem. E me irrita como mesmo sabendo que não preciso ser bonita, ainda assim algo dentro de mim deseja por isso. Arde por isso. Grita em meus ouvidos sobre como eu deveria ser mais bonita.
Sobre como eu deveria desejar ser mais bonita.
Em 2012, Mika Ninagawa dirige o live action do mangá Helter Skelter. O filme dá uma densidade específica ao mangá: as primeiras cenas que são quase comédia no traço de Kyoko Okazaki, ainda que desconfortáveis, são vividas na tela em cores vibrantes e cenários maximalistas, sob viés erótico. Lilico é linda: seu rosto foi talhado com cuidado para estar em todas as capas de revista e o preço que ela paga por isso é tão, tão alto que a leva direto para a espiral da auto-destruição. Ela é uma protagonista carente, irascível, abusiva, deprimida, insegura de si, melancólica, agressiva e que precisa desesperadamente de ajuda. Ela se destrói — porque assim a indústria da moda o exige — e ela destrói o outro: abusa de sua assistente particular, deforma sua rival romântica, ameaça retalhar sua rival profissional.
Lilico é linda.
Eu gosto muito de pensar em como, na trama, Lilico é vítima e algoz. Gosto, sobretudo, da forma do filme Helter Skelter. Enquanto o mangá destaca a sua crueldade, trazendo cenas eróticas sem qualquer sensualidade, o filme ressalta a melancolia de Lilico: tão bonita, tão cruel, tão perversa, tão vítima das circunstâncias que a guiaram até ali. Ela é bonita porque precisa ser bonita, e ela é autorizada a ser cruel porque é bela. Ela é amada enquanto é flor tenra, descartada quando apodrece.
A conexão que aqui faço com A Substância é um paradoxo fascinante: quanto mais bonita Lilico é, mais feia ela se torna. Quanto mais Elizabeth é Sue, menos Sue vai existir no fim. A beleza não é um bem infinito em ambas as obras, ao contrário: vem mediante sacrifício, seja ele do seu corpo ou do seu dinheiro, ou ambos. Lilico começa a apodrecer quando o corpo dela passa a ter efeitos colaterais com todos os procedimentos que fez — e quanto mais faz, mais remédios, mais procedimentos, mais problemas e o efeito rebote segue ao infinito. A beleza exige manutenção, cuidado, protocolos a serem seguidos, regras que não podem ser quebradas. Mas Lilico não é capaz de segui-las, muito menos Elizabeth Sparkle que, na sua bela versão Sue, porque em ambas as obras, a beleza se equipara à cocaína.
Em Helter Skelter, beleza é juventude e também é amor. É acesso, é graça, é louvor. Lilico trabalha enquanto for bonita. Lilico é perdoada por Hada, sua assistente, em todos seus crimes por ser bonita. Enquanto ela é bela, ela é amada por Hada, pela empresária a quem chama de mãe, pelos apresentadores de TV e pelas fãs. Para Lilico, beleza é sexo e sexo é a porta de entrada para todas as coisas que ela quer: mais tempo em tela, mais contratos, mais dinheiro para que possa se livrar do trabalho, uma vez que não tem outros talentos.
Em A Substância, beleza é juventude e juventude é beleza. E ambos, de forma indissociável, são a mesma coisa que o amor. Elizabeth é amada enquanto é bela. Os outros lhe sorriem, lhe desejam, lhe empregam enquanto é bela. Elizabeth mora sozinha em seu grande apartamento: não tem um amigo, um assistente, nem mesmo um cão. Beleza é, portanto, a única coisa que ela tem, a única coisa que lhe permite ter qualquer tipo de elo com o mundo lá fora. A velhice é, dessa forma, o último golpe em seu caixão. Velhice é solidão.
Frases óbvias, eu sei. Frases bonitinhas para você fingir que são pensamentos profundos, mas não são. Pois A Substância é um filme óbvio, e Helter Skelter também. Assim como é óbvia a crítica em Meninas Malvadas quando a beleza se torna objeto de disputa. Igualmente, em Diário de Bridget Jones, e também em Hairspray. Há tantas, tantas obras sobre como há um preço a se pagar pela beleza, e sobre a relação íntima da mulher com tudo isso. Beyoncé escreveu Pretty Hurts por um motivo, afinal. Então por que essa crítica continua a ser feita? Por que esse assunto continua martelando tão forte?
Hmmm… por quê?
Parte II: A FORMA
A Substância é basicamente dois filmes.
O primeiro quase se pretende sério. Quase. É todo arrumadinho: as cores são impecáveis, saturadas como se tivessem sido roubadas da fotografia de La La Land. Los Angeles é linda. Demi Moore sofre enquanto brilha, gostosa, em seu collant. A substância referida no título é apresentada com a mesma identidade visual de qualquer kit anti-calvície apresentado por influencers aleatórios. As instruções são sucintas. A mensagem é clara. É um filme redondo, preciso, exato. Não há dúvidas: é uma obra sobre pressão estética, patriarcado, etc.
Você já viu esse filme várias vezes. Bom ou ruim, você já viu. Você assiste, entende, se deleita com a fotografia, as atuações, o roteiro, a câmera. Okay. É um bom filme.
Então A Substância vira outro filme mais ou menos nos trinta minutos finais.
Ha-ha. Aqui é o momento que A Substância diz a você: confia, e você confia.
Eu gosto particularmente desses momentos finais: Sue enlouquece, desmonta, se desfaz em dente e gore. Faz de si mesma matriz, infringindo as regras bem escritas. Converte-se em outra coisa, um monstro, uma aberração, algo tão bizarro que, ainda assim, colocará seu belo vestido e irá se apresentar no evento do Ano Novo. Honestamente, eu a amo. Entre Elizabeth, Sue e Elizasue, essa versão é a minha favorita: é o pesadelo mais grotesco que alguém poderia ter, uma quimera de dentes e carne e ossos e cabeças perdidas e olhos desencontrados que só queria, por mais um dia, por mais algumas horas, ser bonita porque ser bonita é ser amada.
A diretora, Coralie Fargeat, podia ter parado antes. Ela podia ter feito sem aquele final que o filme permaneceria bom. Decente. Uma crítica social pertinente. As pessoas a elogiariam, talvez dessem um ou outro prêmio. Então… por que ela não parou?
Por que tanta questão de pôr uma sequência tão bizarra, tão grotesca, tão ridícula? Por que pôr a criatura sendo decepada e tingir todas as paredes com o sangue jorrado? Por que fazer o rosto — só o rosto! — de Demi Moore se arrastando, junto com pedaços de órgãos, até definhar na sua própria estrela da fama?
Quando estávamos vendo a cena na qual Elizabeth aparece para o evento, toda arrumadinha, os peitos tudo pra fora do vestido, minha mãe disse, ao meu lado:
nossa, Demi deve ter se divertido tanto fazendo essa cena.
E é essa a resposta.
Porque é divertido.
Porque… sim.
Eu estava intrigada porque descobri que algumas pessoas não perceberam a crítica no filme. Não sei quem são essas pessoas. Talvez sejam vozes no vazio sobre as quais nem deveria comentar sobre. Mas eu pensei sobre isso: é uma crítica muito óbvia, não é? Será somente falta de capacidade interpretativa? E então pensei que talvez não. Pensei que, hey!, talvez o problema seja que a diretora não quis dar uma abordagem exclusivamente dramática, triste e trágica ao filme. Ela quis se divertir. Ela quis pôr a cara de Demi Moore em uma criatura grotesca, mas pela qual nós temos alguma simpatia ainda assim porque nós sabemos quem ela é. Nós não corremos dela porque, dentro do filme, entendemos ela como o resultado de uma tragédia particular. Ela quis que o final do filme fosse marcante, ridículo, surreal. Algo que deixasse as pessoas de boca aberta não porque aquilo aconteceu, mas porque alguém, no set de filmagens, teve essa ideia e foi autorizada a seguir em frente.
Ainda é uma crítica se há diversão no ato? Há pesar no conteúdo se há leveza na forma? Se nós rimos de Elizasue se desfazendo em sangue sobre uma multidão em choque, a mensagem final foi perdida? É incompatível esse texto solene, sério sobre como a pressão estética massacra mulheres, as levando para a morte, com a forma do filme com suas cores vivas, corredores suntuosos, diálogos esquisitos e os fatídicos minutos finais?
Gosto de como A Substância abraça a si mesma como uma obra trash. Gosto de como ela nem se esforça para fingir pretensão. A Substância sabe que poderia ter encerrado trinta minutos antes e se consagrar como um filme sério e bonito sobre a ditadura da beleza, mas não quis, e esse final o faz melhor do que bom, o faz saboroso. Faz com que o filme arranque um sorriso incrédulo dos seus lábios enquanto os corredores são tingidos de sangue. É vívido, é doentio, é divertido, é gore, é triste, é colorido e é cruel.
Acho que valeu a pena. Me fez escrever.
Também me fez pensar em como deveríamos apreciar mais as escolhas inseguras nos filmes, livros, jogos de videogame. Que deveríamos ter mais carinho pelos artistas que querem fazer o que querem, independente das decisões executivas. Não faço ideia de como ninguém barrou a equipe de A Substância na produção daquele final, mas eu fico genuinamente feliz de que deram sinal verde para que essa história fosse contada da forma como foi. Eu quero mais histórias assim: que sejam contadas como seus criadores querem, sem serem interrompidas por executivos, patrocinadores, acionistas da Netflix. Eu só queria mais arte sendo feita.
Essa é a sensação que tive quando vi A Substância:
de que vi arte sendo feita por artistas se divertindo. De que alguém se deleitou construindo aquele filme, e que eu tinha o privilégio de acessar um pouquinho do cérebro de várias pessoas. Porque é isso que arte é, não é? Um jeito de acessar a humanidade por outros olhos, não é mesmo?
É isso que faz A Substância ser diferente de Helter Skelter, sabe? Porque Helter Skelter foi feito da mesma forma: é a mesma mensagem, a mesma lógica de uma beleza doentia e viciante. Mas foram feitos por artistas diferentes, então se tornaram obras próprias, cada qual com seu tom particular.
O que faz Helter Skelter brilhar é a melancolia cruel que se abate sobre os personagens, é a estética maximalista e exagerada de Lilico, é o erotismo presente em cada segundo. O que faz A Substância brilhar é a vivacidade de cada ângulo, o senso de irrealidade que cada cenário dá, o sorriso convencido e rosa-glossy de Margareth Qualley, é a nudez despreocupada e o gore absurdo.
A arte não é sobre ser original.
É sobre dar o seu tom às velhas histórias. Nada mais.
P.S.: não sei se isso é um retorno. Pensem nisso mais como uma visita.
Descrição da imagem: rabisco digital simétrico no qual um rosto aparece com sete olhos em cada lado, catorze ao todo, um nariz e uma boca. Alguns dos olhos possuem duas íris. É feito de forma rabiscada; apressada e torta, sem nenhuma preocupação técnica. Fundo cor-de-rosa.



EXCELENTE TEXTO!
Estava atrás de alguém falando sobre o monstro Elisasue e dei de cara com essa interpretação incrível — você conseguiu colocar em palavras muito do que eu senti assistindo o final, o quão cômico foi o trágico de ver a protagonista se desfazendo. A substância pra mim foi uma brisa fresca no meio de tantos filmes que saíram nos últimos anos sobre essa temática, e inclusive me lembrou muito Death Becomes Her (que, caso você não tenha visto, eu recomendo bastante!).